Entre, embarque, navegue.

07/02/18

Postar ou não postar? Eis a questão!

Postar ou não Postar: eis a questão.
Praticamente todos os dias, nos grupos de Laboratório de Leitura que coordeno, nas aulas que dou na universidade, nas palestras que profiro Brasil afora, sou interpelado a respeito das redes sociais: “O que você acha disso? As redes sociais vão substituir os livros? Elas nos emburrecem, nos alienam?” Como todo produto ou meio social, as redes sociais não são em si algo perverso ou virtuoso. Elas acabam refletindo e reproduzindo a forma como nos pensamos e nos comunicamos num determinado tempo e numa determinada circunstância histórico-social. De fato, é notável a tônica narcisista e exibicionista da maioria das postagens que encontramos no Instagram ou no Facebook, por exemplo. Não é preciso grande esforço analítico para perceber a intenção (consciente ou inconsciente) de autoafirmação e autopromoção que subjaz por detrás da self no espelho do elevador, diante da Picaddily Circus, ou do close no prato chique ou hiper mega saudável que se irá consumir em seguida. Já sabemos também que, por detrás desta necessidade de passar uma imagem de descolado, sofisticado, sarado, viajado, poderoso e principalmente FELIZ, esconde-se muita insegurança, medo, culpa, tristeza… Isso, parece, todos nós já sabemos. Todos nós sabemos, afinal, que o verdadeiro nome do Face é “fakebook”. Não é estranho, entretanto, que apesar de sabermos tudo isso continuamos a acessar compulsivamente as redes sociais e a reproduzir nós mesmos aquilo que sabemos ser vazio e muitas vezes deletério? É claro que estou me referindo apenas àqueles que sei que irão ler esse post nas redes sociais, pois quem leria um texto deste tamanho se não se identificasse com essas coisas que estou dizendo e se sentisse um tanto quanto incomodado em relação aos rumos que as coisas estão seguindo nas redes sociais? Para a imensa maioria que não se questiona sobre tudo isso e continuam postando selfs na academia e no espelho do banheiro, sem qualquer tipo de culpa, tudo isso que eu estou escrevendo não faz sentido algum… Mas e para nós; para esse seleto grupo de pessoas que se questiona sobre postar ou não postar; sobre como se relacionar com as redes sociais; seria possível pensar um critério justo que poderia nos nortear? Enfim, é possível encontrar uma forma efetivamente útil e saudável de se relacionar com as redes sociais?
Pensando nisso, cheguei a uma conclusão que gostaria de compartilhar e que talvez possa ser útil. Creio que pode ser salutar, antes de postar qualquer coisa numa rede social, perguntar-se: isto que penso em postar é útil para alguém? Vai trazer algum benefício para o meu próximo ou não? Será que essa postagem só visa manifestar meu ego e mostrar pra todo mundo o quão fantástico, sortudo, bonito, inteligente e esperto eu sou, ou – no sentido inverso, mas que não deixa de ter a mesma finalidade egocêntrica – quão pobre coitado e merecedor da misericórdia mundial me encontro neste momento?
Não cabe, numa simples postagem como esta, desenvolver uma análise de todas as possíveis consequências que essa nossa atitude maníaca-compulsiva em relação às redes sociais podem trazer no âmbito da cultura, da sociedade e da própria individualidade, entretanto, creio que pode ser válido advertir sobre o salutar hábito de nos questionarmos e refletirmos antes de postar. Neste sentido, nos tempos que correm, postar ou não postar pode ser uma questão tão crucial quanto ser ou não ser.

Dante Gallian

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